Quarta-feira, Maio 28, 2008





















“Esta noite o sono adormeceu-me já os ombros, mas o meu corpo clama pelo desassossego…
Queria estar nos teus braços e não na solidão dos lençóis que obrigatoriamente me acolhem.
Ouvir-te falar sobre qualquer coisa mesmo que isso nada tivesse a ver comigo. E escutar-te. Escutar-te em silêncio sem abrir a boca e sem dizer as habituais barbaridades frequentemente desalinhadas.
Dormiria sim. Nem que fosse aos pés da tua cama… Só para ser a primeira a ter o privilégio de te ver acordar e dar-te os bons dias com sabor a mel.
Fujo da escrita de ti porque sei que derreto ainda mais e descontrolo-me. Torno-me insuportável e perigosamente egoísta. Fica mais incontrolável esta vontade de conquistar a tua atenção, o teu sorriso ou até a tua indignação. Por isso, refugio-me.
Refugio-me no silêncio gritante e quero agarrar-te a todo o custo sempre que te apanho a jeito. Ai… Como eu gostava de te ter só para mim…!
Ensinaste-me que… Mais importante do que escrever ou se dizer o que se sente, é senti-lo e, na verdade, jamais me consegui esquecer disso.
Tomo-o como dogma irrefutável, como tantas outras coisas que me ensinas a escutar, a observar, a saber com o requinte e com o louvor que te são característicos.
Apetecia-me não ter de regressar para outra casa que não a mesma que tu. Não ter no lugar de um corpo transbordante de vida e espírito efervescente o vazio.
Queria muito poder esticar o braço e sentir-te ali. Ainda que continuasses a dormir e não me passasses sequer cartão…
Fica comigo esta noite.

Refugiemo-nos na escuridão da noite e, na profundeza da madrugada, suspiremos até ser dia.
Pronto. Só esta noite.
Amanhã, peço-te outra vez…”

[…]
Andava há semanas para ter a coragem de lhe pedir uma noite, dia após dia.
Porque hoje uma, amanhã outra. Uma de cada vez.
Para ter a ousadia e o despudor de lhe dizer que era a ele que se entregaria.
Essa era a certeza mais suprema que tinha no peito. Essa e aquele sentimento voraz que se apoderava dela e a consumia por inteiro, até lhe ocupar o vazio das ideias por completo e ocultar nas mentais cavernas o conhecimento transbordante, sempre que se cruzava com ele. Capaz de a deixar cega.
Cega de tudo e só desperta para ele.
Porque ela só o via a ele…
Não sendo de ninguém, também não era dela.
Aliás, só a si mesmo se pertencia. Mas para ela… Ele era o «tudo» dela.
- Tudo por tudo… O resto é nada.–

Sexta-feira, Maio 23, 2008





















Coragem, ousadia ou tão simplesmente inteligência…
Pode ter sido qualquer uma das três isoladamente; um misto até.
Superou-se. Deixou de ter medo. Atirou-se numa consciência inconsciente.
Inteligente é aquele que consegue raciocinar com duas ideias opostas ao mesmo tempo e em presença. E parte para acção, sem olhar para trás.
Talvez.

Tinha de ser. Não aguentava mais. Não mais. Não outra vez.
Não sairia a meio. Iria «até ao fim».
De queixo caído, olhar cabisbaixo, e envolta num pensativo silêncio, sentia-se mergulhada num caos. O caos da destruição, porventura o caos que potencialmente antecede a criação.
Queria falar. Queria dizer-lhe qualquer coisa. Queria expressar-se no meio de todo aquela angústia de contrariedades. Mas sentia-se entalada.
O cerco fechara-se. Podia estar só a fechar-se. Numa, contudo, crescente velocidade.
Estava apertada. Entre a espada e a parede. A respiração ofegante, parecia apagar-se. O ar estava a esgotar-se.
A ampulheta deixava passar os últimos grumos de fina areia. O tempo aproximava-se de um indecifrável fim. Enevoado. Perturbador. Firme. Confuso.
Só o efeito «surpresa» poderia revirar a moeda. E relançar os dados, esticando a corda e folgando uma vez mais, a oportunidade.
Recuperar o perdido; aquilo que se perde sempre que se espera e não se avança na batalha.
Tremia. De um momento para o outro, transfigurara-se. Entrara sem saber num estranho estado de concentração, drogado pelo varrimento da escorregadia insegurança.
Estava perto; estava distante. Estava ali ao lado. Se calhar, debaixo de um tanto de crítica e outro tanto de compreensão, estava a esticar-lhe a mão. Para que ela se agarrasse e pudesse «regressar».
Talvez não fossem as palavras. Talvez fosse o brilho vivo que a derrete todas as vezes que observa aqueles dois luminosos pontos, de uma distância reduzida. Talvez…
Não se sentia observada. Pela primeira vez na Vida. Não estava assim tão preocupada com os olhares indiscretos e, viajava sem saber, na carruagem da concretização.

Na cegueira que só a coragem sabe oferecer, subiu as escadas.
Com as Américas descobertas como pano de fundo, ousou. Lançou um último olhar às redondezas e aproveitou a oportunidade. Mergulhou, enredada que estava ao anzol do impulso. Deixou-se levar.
Finalmente… Finalmente… Finalmente!
E fugira que nem uma criança apanhada a traquinar; apanhada a fazer as malandrices próprias de quem nos primeiros anos da inocência, tudo encara como uma descoberta, um novo (e renovado) fôlego de conhecer, de experimentar.
Um passo de Vida. Ideal e Real, postos ao mesmo nível.
Desceu a correr, entrou na carruagem aos pulos, descompassada que estava…
Consegui!
Desgraçada noite foi aquela que se seguiu. Adormecera com o cansaço colado ao corpo, feito que era, tal e qual, pastosa plasticina vermelha.
Acordara a todas horas e a todas as horas sacudira, num misto de espertina e de sonolência, a verde cortina recentemente pendurada. Ainda estava longe de ser dia.
Nesses instantes em que zoava pela consciência, sentira o estômago baloiçar, desperto que estava com a proeza da desgraçada alma que então ousara corporeamente manifestar-se, enfim.
Abrupto estado de ansiedade.
- E agora? -

Quinta-feira, Maio 22, 2008



Cerejas e chocolate.
Amanhecera em euforia para anoitecer em absoluto estado de êxtase, tal e qual uma poética composição redigida em esquema circular, como numa viagem ao interior das fortificadas muralhas em que a entrada e saída se faz exactamente pela mesma porta.
A meio do dia, emudecera. De queixo em baixo, secaram-lhe as palavras. Ainda disse algumas coisas sobre «Depressão», uma das doenças do século das comunicações por via digital, para se calar logo a seguir. Só via cinzento.
No lugar das gargalhadas deles, ocultava-se uma tristeza sem fim, denunciada até pelo Senhor Tira Nódoas, de bigode esbranquiçado; o único a dar conta daquele carregado silêncio em que ela se resguardara, amargamente.
Não pense mais nisso. Olhe que a Vida são dois dias…
O problema é que eu sei estar já no segundo dia. E já não no início do segundo dia, persiste em mim a vontade e a culpa de ainda não ter concretizado a minha «missão».
Esboçou-lhe um forçado sorriso, tentando ser simpática. A dor era demasiado pesada para conseguir ir mais além do que um então complexo arreganhar de dentes. Mas mesmo assim, o Senhor Tira Nódoas compreendeu.
Talvez fosse o único. O único a perceber a gravidade da situação. E a perceber que ela estava na ponta. Na ponta de se atirar de uma vertiginosa altura para abraçar o infinito fim das memórias… O fim dos fins. O fim de tudo.
Mais adiante, ciente de que a atenção se varria para o canto, para trás de si num abraço ou em algo mais que as suas costas não viam mas sentiam, tornou a mergulhar na solidão. Numa solidão apenas quebrada pelo chocolate e por aquele misto de quente com líquido ardente que lhe desceu pelo esófago lenta e lentamente, em três tragos e uma dentada.
Epá… Mas isto é mesmo bom…!
Durante dois pares de minutos sentiu-se balançar entre o cinzento de um céu encoberto e, finalmente, o afastar das nuvens e a aberta, o descer da luminosa luz vinda dos céus, brilhante e harmoniosa carregada de boa energia.
Sempre com o abismo à esquerda, subia e descia com uma incomum mestria, como se aqueles fossem passos recorrentes. Não tinha medo das alturas. Aliás, de nada parecia ter medo. Só da solidão presente. Da solidão consentida. E da «traição».
Parecia invisível. Alheia às conversas e aos gracejos. Sentiu-se, muitas vezes, uma incómoda presença. E só outro trago de líquido ardente lhe recuperou uma vez mais a passagem para a entrada no paraíso das sensações.
Aqueceu. Quase que derreteu; com D. Afonso nas costas, e uns quantos turistas que inundavam o espaço, testemunhou o desabrochar de uma quase incontrolável sensação de «desejo». O pescoço transpirava e o peito ardia. O calor ardente, potencial, descia e subia, sem se compreender muito bem que direcção almejava tomar. Parecia enlouquecer, corrompida que estava pela porta de acesso à liberta fúria do desejo.
Podendo aproveitar o balanço, desperdiçou a «preparação» quando os ondulados fios de cabelo se debruçaram sobre o rosto, ocultando-lhe o efervescente sentir. Uma vez mais, silenciou-o. Fechou os olhos e sentiu apenas a música. E o cheiro do perfume que lhe vinha do Oeste.
A terceira caiu amarga. O pico foi a segunda. Depois das duas, aquela última azedou-lhe o humor e fê-la regressar ao degelo de ânimo. A luz, surgida da aberta, apagou-se. E ela vingava-se nos cliques que a Canon lhe consentia.
Revolta naquela dor, emudeceu novamente. Puxou o fecho e alheou-se. De quando em quando vertia uma lágrima cortante, incapaz que estava de controlar o pesado vazio que sentia.
Nunca me hão de ver chorar em público…
E, no entanto, elas caiam, farpadas. Em mudo silêncio.

- O trajecto? O caminho? O empurrão? -

Terça-feira, Maio 20, 2008



Olhou-a de alto a baixo com um sorriso matreiro. E ela não se fez de rogada com a porta entreaberta e as descobertas pernas à espreita, retribuiu o «olá».
Sabia-se provocadora, debaixo daquele ondulado cabelo mais selvagem do que o costume, ainda molhado pelo banho quase acabado de tomar, e da inocente expressão de despreocupada indiferença.
Consta que depois de três anos a estudar contabilidade, decidiu enveredar pela tecnológica ciência de verificar a manutenção dos elevadores.
Não devia ter saído da casa dos vinte e tantos anos. De aparência vigorosa percebia-se à légua que Maio já tinha feito das suas; o sangue novo atiçara.
E isso percebeu-se demasiado bem… Lançou-lhe um fervilhante olhar como se a resistência de animal instinto estivesse forçada a calar-se, dada a circunstância de um terceiro elemento presente.
Gostava de se fazer de difícil. De insinuar disfarçadamente e sentir o reflexo.
Enchia-lhe o ego nas manhãs de tempestuoso humor e nas chuvosas tardes de ânimo, usá-los com falsa ingenuidade, sorrateiramente, e cruzar as pernas numa posição estudada quase ao milímetro.
É verdade que o tecido subia, deixando mais a descoberto. Mas o que ao início a deixara algo embaraçada era agora feito com sábia mestria.
Descobri-las era um escape; um refúgio com um ligeiro toque a exibicionismo.
Gostava daquele jogo de sedução, fria de sentimento. Só pelo puro prazer de se sentir alvo de um desejo obscuro de inconcretização.
Era como se desse a beber na mão o viciante manjar dos deuses (só o suficiente para o viciar), mas nem sequer deixasse chegar a meio o sujeito passível de se viciar, retirando-lhe com rapidez e crueldade a mão e o manjar. Sem lhe saciar a vontade e o desejo. Sem o deixar dar-se conta que tanto poderia dar mais um gole, como nunca mais dar nenhum. E aprisioná-lo para sempre em si.
Por isso, abria um pouco e não tudo. Deixava espreitar sem entrar e ficava a observar. A sublime dor do inconcretizado, do insaciável desejo latente, na presença de um duro e gélido frio envidraçado que separava o exterior do interior, deixando-a sempre resguardada de tudo. E, sobretudo, do pecado de pôr o pé em falso e descontrolar-se com o doseamento do manjar que dava a beber na mão.
A entrega é una e não se faz a qualquer um. E as chaves andam por aí perdidas, nessa Lisboa menina e moça…

[Apetece-te?]

Domingo, Maio 18, 2008





















Grito mudo.
Ninguém me ouve. Ninguém procura primeiro por mim. Ninguém olha.
Sempre a última; nunca a primeira.
O meu mundo é o dos espiões. Das punhaladas nas costas. Dos esquecimentos intencionais. Do alheamento de todos.
Não em vão. Nunca em vão.
De cicatrizes são feitas as minhas costas. E de frágeis crostas o meu coração esquartejado. São roteiros de uma Dor só minha.
Ninguém me ouve. Ninguém procura por mim. Ninguém olha.
Sei que não a compreendem.
Passo indiferente. Passo despercebida.
Sentir é mentir. Ninguém me sente. Não passo de um sopro de silêncio. De uma folha seca que se instalou nos vidros dos olhares comprometidos e, quase sempre, distantes; inatingíveis.
Indigna de tudo. Merecedora apenas de uma amarga inexistência subsistente…
Todos se dizem fartos do meu discurso; sonolentos das minhas palavras. Porventura, vão frete de ouvir, de olhar, de ser e de estar.
Talvez já não tenha histórias para contar. Talvez também não haja mais ânimo e vontade de as ouvir. Talvez a falhada tentativa de rasgar a monotonia não quebre mais a constância dos dias incolores. Talvez os defeitos todos se resumam ao irreflectido domínio da razão pela emoção louca e ao derivante ânimo desenfreado. Talvez tenha dito tudo…
Abissal é o peso; carregado o fardo.
Sou o tapete das discussões e o tabuleiro das ferozes críticas…
Há quanto tempo não me abraçam? Há quanto tempo não me dão um beijo? Há quanto tempo espero que me olhem, que me oiçam e me dêem atenção sem agarrar no rolo da massa para me atirarem umas quantas à cara e me apelidarem, dentro da minha própria casa, de inútil e de irresponsável?
O cansaço acorda todas manhãs sobre os meus ombros. O desânimo agarra-se ao pescoço, mal abro os olhos e, à noite, ela visita-me.
Negra e carregada é a única que me dedica total atenção. Esmaga-me com dor a testa e depois a nuca. Um analgésico aqui, outro ali. Não adianta. Veio mesmo para ficar.
Meia rodela de batata em cada ponta da testa. O frio acalma-me. Anestesia, ainda que na ideia seja aquele o mesmo pensamento…
O fim. O adeus. A partida para a outra Vida se ela existir.
Corre-me nas veias esta tendência; mais tarde ou mais cedo, havia de desabrochar.
E ela teme. Sabe que sou intensa o bastante para um dia perder a cabeça e atirar-me no abismo.
E eu sei. Sei como pôr cobro a toda à inutilidade; a este sopro de existência; ao fardo que a todos faço carregar.
Estou a meio passo. A meio passo de me reencontrar com eles; os dois perdidos…
E finalizar aquilo que nunca devia ter começado: esta existência podre desde o início…

[Estão cansados de mim. O descanso está para breve. Não se preocupem.]

Terça-feira, Maio 13, 2008





















Chamou-me à atenção. O penteado da senhora e o caminhar descompassado, acelerado rumo à estação ferroviária… Mas segui, segui em frente…
Queria a minha cama e os meus lençóis frios. Queria aninhar-me como se fosse novamente uma criança e esperar que aquela crise matinal partisse enfim, com umas pequenas horas de sono a mais.
Na Estadualmente Marginal Nova a crise adensou-se. Fechei os olhos, desejando cegar e não ver tanta luminosa e esclarecida luz. Recusei abri-los. Repudiei o caminho e a aragem húmida que me sacudia em vão a moleza do corpo e a melancolia do rosto.
Bebeste o meu café…
A real, porém, suposta posse de uma espécie de «estatuto» por exercer, desenvolveram-me o estranho hábito de me agarrar à cafeína como fonte de atrito para a inércia. Hoje, contudo, a garrafa estava vazia; não havia café para mim…
Adormeci com o calor dos raios solares a abraçar o vazio. Ignorei tudo o que tinha aprendido. Esqueci e fechei os olhos, num gesto apenas contrariado para estender o braço fora do vidro e aceitar com um «bom dia» ensonado o Meia Hora e o Destak.
Bêbada de sono. É possível?
- Chegou a irmã de … Disse que te queria ver.
Não esperei que a frase fosse terminada. Desde há muito que a desejava ver. Era aquela que de mais próximo o estimado «avô» me tinha deixado. A amante loira era uma vadia como as outras; chorara lágrimas de crocodilo há um ano atrás.
Mas ela… Tinha nascido do mesmo ventre que ele. Recebido a mesma educação e nela podia reconhecer-lhe alguns traços do saudoso irmão.
Helena.
Mal a vi… Desisti de resistir. As lágrimas escorreram-me pelo rosto abaixo, em corrente.
Como eram tão parecidos…! – Inacreditável. - Até nos óculos que usavam…!
Agarrou-me nas duas mãos e ficou comovida. Envergonhada; não consegui aguentar o peso da saudade. Não necessariamente de Helena, sua única irmã, mas dele. Ela fez-me recordá-lo. Vi-o nela. Ela percebeu; porque me disse que podia ir…
Sei que era tema recorrente. O excesso de sensibilidade, a inocência, mas também a garra. E dizia ele, a capacidade. Apresentava-me como se fosse do mesmo sangue, sempre. Com um orgulho que me fazia ficar pequena e agir mais timidamente.
Ela lembra-se bem disso. Disse-me entre os dentes que era «a preferida». Que ele não se cansava de elogiar a menina da trancinha com uma ternura sem fim.
Ele sabia bem. Sabia que em tudo o que fazia era verdadeira. E chateava-se às vezes comigo, por isso. Dizia-me que tinha de abrir os olhos e aprender a fazer jogo.
Quando Marília o deixou, sei que o mundo desabou. Para ele, mas para mim também.
Arreliou-se comigo quando me viu entrar São João de Brito abaixo. Devia guardar imagens dela viva, sorrindo sempre que eu insistia com ela para me dar mais exercícios de gramática em francês. Não recordá-la, assim… Com o rosto tapado por aquela alva toalha e a expressão apagada, seca de amor e sem vida. Não lhe dei ouvidos...
Éramos a companhia uma da outra. Não havia diferenças de idade. A diferenciação vinha apenas da forma de tratamento, respeitosa da minha parte.
Sim… Nesses tempos, meio mundo bateu a porta e se não fosse ela e ele e o bando dos quatro, tinha ficado sozinha, entregue ao abismo. Ninguém se preocupou com isso.
Fui lá. Despedir-me dela. À revelia do que me aconselhara.
A uma sessão estranha de riso nervoso antes de entrar na sala, seguiu-se o silêncio. A apatia e a inexpressão. Havia desumanas gargalhadas, no corredor, dos que se diziam seus amigos.
Queria dizer-lhe “olá”…
Ela dormia. Um sono eterno. Esperei que ela acordasse. E ela não acordou. Quiseram-me resguardar daquilo. Implorei para ficar.
Continuei a observá-la. A ela. E a todo aquele manancial de flores. – Das roxas havia aos montes. – Em viva, sentia-se sozinha. Muito sozinha. Agora, todos ali se reuniam. Festejavam, parecia, sem o mínimo pudor.
Depositada na garganta crescia a amargura. Comecei a suster com força a respiração. Sentia o descontrolo a apoderar-se de mim.
E eis que tudo desaba…
Nessa altura, repudiava qualquer forma de expressão sentimentalista. Não conhecia abraços, nem toques que não os da régua que de quatro em quatro meses se colava à coluna vertebral para fazer medições. Detestava que me vissem chorar em público…
A força de ser fria e imparcial foi-se. Caiu o pano. E eu chorei. Como nunca tinha chorado.
Todos viram. Calaram-se. De olhos muito abertos, todos me observaram.
Ele, o «avó», veio ter comigo. E apertou-me contra si. Como bom capricorniano, não se manifestava muito. Abraçou-me ainda assim.
Disse-te para não vires. Por que é que foste teimosa?
Teve de ser.
E ela lembra-se bem disso. Estava lá. E viu.

Não escondo de ninguém que era um grande amigo (é e será). Que me ensinou muito do que sei hoje e que me tratava como se fosse mesmo sua neta de verdade. Aturava-me, muitas vezes, em prolongados serões de tarde quando a matemática me dava cabo do juízo e as dúvidas me inundavam de medo. E sempre que estive mal, visitou-me com um abraço forte e palavras de conforto.

Foi por isso que me quis ver: por sentir falta dele.
Também eu. Para mim, todavia, ele existe.
Está sempre comigo. Só que idealmente… Apenas. Realmente já só está no misto do que aprendi com ele com aquilo que eu tenho para ser. Quando sou, sou muitas numa só. E um pedaço cabe-lhe igualmente a ele. A ele e a Marília…
- Eternidade das memórias vivas. -

Segunda-feira, Maio 12, 2008




É como se o ar fresco viesse só de fora e aqui tudo já estivesse meio morto. Como se o corpo não tivesse vida e a alma estivesse apagada…
O ciclo das depressões torna-se viciante. Uma irónica pescadinha de rabo na boca, como diria a geógrafa Iolanda; uma composição em esquema circular, como ensinara o professor, que odiava ver uma janela fechada sem o seu expresso consentimento, acerca da poesia.
Ou começamos de base. Ou o edifício pode desabar a qualquer momento porque as bases não foram construídas de forma suficientemente sólida. E, sobretudo, temos de ser autónomos o suficiente para acarretarmos com a responsabilidade de nós e, adaptáveis para nos moldarmos ao inesperado das situações que escapam à regra.
A vida, às vezes, é um castelo de cartas.
Cai uma carta e com ela outra e mais outra, senão mesmo todas. É o chamado «efeito dominó». É a balcanização do sentir.
A fragilidade é uma coisa cara. Sai-nos do corpo e da alma. Temos de estar sempre à procura de uma forma de nos agarrarmos, de criar laços; firmar os passos no meio de tanta incerteza.
Os seres frágeis fazem de uma gota a chuva, a tempestade num copo de água. Confundem-se todos, têm sempre muitas dúvidas – o que os leva a ser excessivamente prudentes, o bastante para morder primeiro o esquema e só depois agir… Devagar. -, e muito medo. Mas não. Não adianta comprarem um cão.
Precisam muitas vezes que os envolvam nos braços e os apertem com força. Precisam que os abanem com umas quantas verdades. Que os espicacem até fazer sangue para os fazer soltar toda a insegurança num pranto de lágrimas. E a seguir começar do zero. Neste caso, recomeçar.
Depois da explosão, brotam cheios de vida tal como os malmequeres, as papoilas e tantas outras espécies vegetais que povoam os campos neste banquete primaveril. E crescem, crescem e crescem com um vigor sem par.
Ficam com ideias novas; com as pilhas carregadas. Prontos a matar as dificuldades e a procurar soluções e o caminho para a torre.
Se alguém se lembrar deles com um «olá», ainda que flutuante, e a possibilidade de uma janela aberta… Ainda é melhor.
Porque o mundo está sempre a girar mesmo quando o julgamos sentir igual e lá de cima tudo está traçado. Ele finge esquecer-se de nós, mas todos temos a nossa «oportunidade» de saltar para o jogo e atirar os dados.
E quando a «oportunidade» chega o melhor é arriscar e aproveitar a orientação da correnteza…
Nem todas as crises são más. Algumas conseguem ser tremendamente construtivas…
Não dizem que da discussão nasce a luz?
[- Passo a passo… -]