
Chamou-me à atenção. O penteado da senhora e o caminhar descompassado, acelerado rumo à estação ferroviária… Mas segui, segui em frente…
Queria a minha cama e os meus lençóis frios. Queria aninhar-me como se fosse novamente uma criança e esperar que aquela crise matinal partisse enfim, com umas pequenas horas de sono a mais.
Na Estadualmente Marginal Nova a crise adensou-se. Fechei os olhos, desejando cegar e não ver tanta luminosa e esclarecida luz. Recusei abri-los. Repudiei o caminho e a aragem húmida que me sacudia em vão a moleza do corpo e a melancolia do rosto.
Bebeste o meu café… A real, porém, suposta posse de uma espécie de «estatuto» por exercer, desenvolveram-me o estranho hábito de me agarrar à cafeína como fonte de atrito para a inércia. Hoje, contudo, a garrafa estava vazia; não havia café para mim…
Adormeci com o calor dos raios solares a abraçar o vazio. Ignorei tudo o que tinha aprendido. Esqueci e fechei os olhos, num gesto apenas contrariado para estender o braço fora do vidro e aceitar com um «bom dia» ensonado o
Meia Hora e o
Destak.
Bêbada de sono. É possível?- Chegou a irmã de … Disse que te queria ver.
Não esperei que a frase fosse terminada. Desde há muito que a desejava ver. Era aquela que de mais próximo o estimado «avô» me tinha deixado. A amante loira era uma vadia como as outras; chorara lágrimas de crocodilo há um ano atrás.
Mas ela… Tinha nascido do mesmo ventre que ele. Recebido a mesma educação e nela podia reconhecer-lhe alguns traços do saudoso irmão.
Helena. Mal a vi… Desisti de resistir. As lágrimas escorreram-me pelo rosto abaixo, em corrente.
Como eram tão parecidos…! –
Inacreditável. - Até nos óculos que usavam…!
Agarrou-me nas duas mãos e ficou comovida. Envergonhada; não consegui aguentar o peso da saudade. Não necessariamente de Helena, sua única irmã, mas dele. Ela fez-me recordá-lo. Vi-o nela. Ela percebeu; porque me disse que podia ir…
Sei que era tema recorrente. O excesso de sensibilidade, a inocência, mas também a garra. E dizia ele, a capacidade. Apresentava-me como se fosse do mesmo sangue, sempre. Com um orgulho que me fazia ficar pequena e agir mais timidamente.
Ela lembra-se bem disso. Disse-me entre os dentes que era «a preferida». Que ele não se cansava de elogiar a menina da trancinha com uma ternura sem fim.
Ele sabia bem. Sabia que em tudo o que fazia era verdadeira. E chateava-se às vezes comigo, por isso. Dizia-me que tinha de abrir os olhos e aprender a fazer jogo.
Quando Marília o deixou, sei que o mundo desabou. Para ele, mas para mim também.
Arreliou-se comigo quando me viu entrar São João de Brito abaixo. Devia guardar imagens dela viva, sorrindo sempre que eu insistia com ela para me dar mais exercícios de gramática em francês. Não recordá-la, assim… Com o rosto tapado por aquela alva toalha e a expressão apagada, seca de amor e sem vida. Não lhe dei ouvidos...
Éramos a companhia uma da outra. Não havia diferenças de idade. A diferenciação vinha apenas da forma de tratamento, respeitosa da minha parte.
Sim… Nesses tempos, meio mundo bateu a porta e se não fosse ela e ele e o bando dos quatro, tinha ficado sozinha, entregue ao abismo. Ninguém se preocupou com isso.
Fui lá. Despedir-me dela. À revelia do que me aconselhara.
A uma sessão estranha de riso nervoso antes de entrar na sala, seguiu-se o silêncio. A apatia e a inexpressão. Havia desumanas gargalhadas, no corredor, dos que se diziam seus amigos.
Queria dizer-lhe “olá”…
Ela dormia. Um sono eterno. Esperei que ela acordasse. E ela não acordou. Quiseram-me resguardar daquilo. Implorei para ficar.
Continuei a observá-la. A ela. E a todo aquele manancial de flores. – Das roxas havia aos montes. – Em viva, sentia-se sozinha. Muito sozinha. Agora, todos ali se reuniam. Festejavam, parecia, sem o mínimo pudor.
Depositada na garganta crescia a amargura. Comecei a suster com força a respiração. Sentia o descontrolo a apoderar-se de mim.
E eis que tudo desaba…
Nessa altura, repudiava qualquer forma de expressão sentimentalista. Não conhecia abraços, nem toques que não os da régua que de quatro em quatro meses se colava à coluna vertebral para fazer medições. Detestava que me vissem chorar em público…
A força de ser fria e imparcial foi-se. Caiu o pano. E eu chorei. Como nunca tinha chorado.
Todos viram. Calaram-se. De olhos muito abertos, todos me observaram.
Ele, o «avó», veio ter comigo. E apertou-me contra si. Como bom capricorniano, não se manifestava muito. Abraçou-me ainda assim.
Disse-te para não vires. Por que é que foste teimosa? Teve de ser.
E ela lembra-se bem disso. Estava lá. E viu.
…
Não escondo de ninguém que era um grande amigo (é e será). Que me ensinou muito do que sei hoje e que me tratava como se fosse mesmo sua neta de verdade. Aturava-me, muitas vezes, em prolongados serões de tarde quando a matemática me dava cabo do juízo e as dúvidas me inundavam de medo. E sempre que estive mal, visitou-me com um abraço forte e palavras de conforto. …
Foi por isso que me quis ver: por sentir falta dele.
Também eu. Para mim, todavia, ele existe.
Está sempre comigo. Só que idealmente… Apenas. Realmente já só está no misto do que aprendi com ele com aquilo que eu tenho para ser. Quando sou, sou muitas numa só. E um pedaço cabe-lhe igualmente a ele. A ele e a Marília…
- Eternidade das memórias vivas. -